25 de julho de 2014

Resenha: Diário do Farol

Título Original: Diário do Farol
Editora: Nova Fronteira
Autor: João Ubaldo Ribeiro
ISBN: 8520912427
Ano: 2002
Páginas: 304
Avaliação: ★★★★★
Sinopse: 'Diário do farol' é o relato autoral de um clérigo amoral e inescrupuloso, que no outono da sua existência resolve inventariar seu rosário de maldades, perpetradas com requintes extremos desde a infância no seminário - de início, sob o pretexto de vingar os maus-tratos do pai; posteriormente, ainda mais sofisticadas, devido ao desprezo de uma mulher. Auto-exilado numa ilha onde pontifica um farol, o bilioso e mesquinho padre dialoga com o leitor para provocá-lo com uma realidade na qual não há bem ou mal, e assim tentar demovê-lo de qualquer noção redentora. Conseguirá? Para ele, não há transcendência, o Universo nos é indiferente e a todos foi negada essa Revelação. Não por acaso, o farol de sua ilha chama-se Lúcifer, 'aquele que detém a Luz'. João Ubaldo Ribeiro, através de sua prosa, lembra o leitor que não há paradeiro para a crueldade humana - nem na realidade, nem na imaginação dos grandes criadores, nem mesmo na do maior deles.
ESTA RESENHA PODE CONTER SPOILERS

  João Ubaldo Ribeiro era escritor, jornalista, roteirista e membro da Academia Brasileira de Letras (cadeira 34). Nascido em Itaparica, a 23 de janeiro de 1941 - † Rio de Janeiro, 18 de julho de 2014. Autor de obras significativas da literatura baiana, brasileira e mundial, Ubaldo possuía um jeito próprio, criativo, cômico e inteligente de narrar seus livros, que se observa com clareza em Diário do Farol.

  Diário do Farol é um livro intenso, narrado em primeira pessoa por um psicopata louco que põe em dúvida todo tempo a veracidade da história e a conduta humana. É o âmago da mente de um doente em forma escrita; seus porquês e como ele se mostra ao mundo, mas, acima de tudo, é um escrito para refletir aonde vai a demência humana; até onde conseguiremos aprisionar o louco que existe dentro de cada um?

  A manipulação nesse livro é constante; Ubaldo tentou pôr à prova a convicção existente em nós e nos pôr a pensar sobre questões polêmicas, como fé, ciência e a demência. Em suas primeiras páginas o escritor do relato nos induz a acreditar que o que ele escreve é vero. “O conteúdo desta narrativa é honesto, corajoso e escrupulosamente verdadeiro (...)” e não deixa de ser honesto em momento algum. A verdade é mutável. E, mais ainda, ela é o que você acredita. Não há uma verdade universal em que se possa acreditar. 

  No decorrer do livro ele conta as suas peripécias, como seu pai o tratava, o abuso que sofria desde pequeno. Apenas sua mãe ficava ao seu lado e ela lhe foi tirada de forma brusca e dolorosa. Sempre sabendo o que havia acontecido à sua mãe, ele foi em busca de vingança; lenta e dolorosa vingança porque a vingança é um prato que se come frio

  Enviado a um seminário, contra a sua vontade, ele começa a planejar sua vingança aos poucos. Usa de métodos inescrupulosos para conseguir o que quer, e comete vários delitos. Sempre com a imagem e a voz de sua mãe em sua cabeça. E com muito mais sede de vingança. Infelizmente, acaba se apaixonando por uma mulher adorável após sair do seminário. Mas ela é noiva e eles mantêm um romance proibido, no qual ela opta por ficar com seu noivo. É o mais fácil e o certo a se fazer. Embora nem tudo que é fácil tenha um bom final.

  É difícil acreditar em algumas coisas que o narrador conta, mas que são reais. “A realidade, sim, é muitíssimo mais inacreditável do que qualquer ficção.” Essa frase é uma das que aumenta mais ainda a possibilidade de ser real esse relato. É espantoso como ele comete os crimes e não sente nenhum remorso, nenhum sinal de culpa. E é exatamente isso o que se vê dia após dia nos jornais; traições, pessoas matando outras, mulheres sendo estupradas, crianças sendo vítimas de maus-tratos e seus opressores ficando livres. A época que se passa o relato é outra, mas os problemas são os mesmos.
(...) o final poderá ser falso – o que ainda não sei, porque acabo de começar e não pretendo fazer revisões, para não ser traído pela improvável, mas possível, tentação de alterar, mesmo que sutilmente, fatos que não devo e não quero alterar."
Página 9
O relato é real, apenas contado de uma perspectiva diferente. 

  “Não confie em ninguém” é a única frase contida na epígrafe do romance, e nenhuma outra se encaixaria tão perfeitamente para a narrativa e para a vida. Deve-se desconfiar confiando.

14 comentários:

  1. Que coincidência, eu fiz o download deste livro no inicio desta semana e se Deus quiser pretendo ler no final de semana, espero gostar. Normalmente eu gosto de tramas que abordam loucos/psicopatas.Vamos ver o que vou achar deste.

    Beijo, van - Blog do Balaio
    balaiodelivros.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Lê-lo te fará muito bem!
      Beijo, depois comente se gostou.

      Excluir
  2. Esse livro parece ser muuuuito bom, fiquei interessada de cara. Eu curto esse tipo de escrita, com mortes, vinganças etc. Beijos

    blogfalandodelivros.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A escrita é a melhor parte. Ela mexe com seu psicológico.
      João Ubaldo era mestre em penetrar na mente humana.
      Cheiro!

      Excluir
  3. Nunca tinha ouvido falar sobre este livro, e o autor era desconhecido pra mim até o dia de sua morte, mas fiquei muito interessada a ler este livro, é o tipo de história que eu estou começando a me interessar
    Beijos,

    Amanda
    Divã Literário

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Em minha modesta opinião, Diário do Farol é o melhor de Ubaldo, e acho que todos deveriam lê-lo.
      Cheiro,
      Jess.

      Excluir
  4. Uow! Adorei a sua resenha, muito interessante a história, desafia nossas próprias crenças a respeito de até que ponto uma pessoa seria capaz de levar a sua loucura. E esse quote é pura verdade mesmo, não tem nada mais assustados que as próprias atitudes do ser humano

    xx Carol
    http://caverna-literaria.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Puxa! Muito obrigada! Esse livro inteiro nos mostra a realidade humana.
      Beijos e cheiros!

      Excluir
  5. Interessante o enredo, não conheço o autor e adorei a dica. Ótimo review Jéssica, entrou pra listinha \0

    Abs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigada! Tenho certeza de que irá gostar e se deliciar com esse livro.
      Beijos e cheiros,
      Jess.

      Excluir
  6. Um livro narrado por um psicopata? Tô super dentro.
    Eu adoro leituras que mexem com minha mente.
    Adorei a resenha e os quotes que você selecionou, eu preciso ler esse livro.
    Vou adicionar na minha lista agora.
    Beijos,
    Yasmin
    deitadosnagrama.blogpsot.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ai, muito obrigada, fico bastante feliz por ter gostado. Leia e depois quero saber o que achou.
      Cheiro!

      Excluir
  7. Conheço muitos livros;`A Casa dos Budas Ditosos,Viva o Povo Brasileiro,O Sorriso da Lagarto´,nunca li nenhum deles mas Diário de Farol tenho muita vontade de ler e já esta na lista na lista de compras.

    ResponderExcluir
  8. Esta semana comprei `` Viva o Povo Brasileiro e O Diário do Farol´´.Estou ansioso para começar a ler.

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...