19 de julho de 2013

J.K. Rowling, Stephen King e outros anônimos


Nem Dan Brown, nem E. L. James: a sensação do mercado editorial é o estreante Robert Galbraith, autor de um romance policial muito elogiado. 

Se você não o conhece, fique tranquilo. Robert Galbraith não existe. O escritor é um pseudônimo de J. K. Rowling, autora da série Harry Potter. O segredo, mantido desde o lançamento do romance The cuckoo's calling por Galbraith, foi desvendado pelo jornal Sunday Times depois que um repórter recebeu uma dica anônima pelo Twitter. Análises linguísticas feitas por computadores mostraram grandes semelhanças entre os estilos de Rowling e Galbraith. Os dois também tinham o mesmo agente e o mesmo editor. No último domingo (14), Rowling admitiu que era a verdadeira autora do livro. "Eu esperava manter esse segredo por mais tempo, porque ser Robert Galbraith foi uma experiência libertadora", disse Rowling. 

Num mercado em que milhares de anônimos buscam a fama, o que leva a autora mais popular do mundo a buscar o anonimato? Observar as reações ao lançamento de Morte súbita, o primeiro romance adulto de Rowling, pode ser um bom ponto de partida para ensaiar uma resposta a essa pergunta. Lançado em setembro do ano passado, o livro foi recebido com uma reação morna da crítica e dos leitores. Foram raras as resenhas, profissionais ou amadoras, que não o compararam à obra anterior da autora. O maior defeito de Morte súbita era não ser Harry Potter. Qualquer texto adulto que a autora escrevesse, dali em diante, ficaria à sombra do maior sucesso infantojuvenil de todos os tempos.

Os autores e suas máscaras

Escrever sob um pseudônimo é uma prática comum. Alguns autores o fazem sem esconder sua identidade. Fãs do irlandês John Banville sabem que ele assina romances policiais como Benjamin Black. A best-seller Nora Roberts adota o pseudônimo J. D. Robb para suas histórias de suspense. Algumas capas de livros estampam os dizeres "Nora Roberts escrevendo como J. D. Robb", para não deixar dúvidas sobre a autoria. Nesses casos, o pseudônimo serve apenas para que o leitor saiba que lerá algo de um gênero diferente daquele ao que o autor costuma se dedicar. Seguindo essa tradição, não é anormal que uma autora infantojuvenil de sucesso decida usar um novo nome para escrever um romance policial.

Há razões menos triviais para recorrer a um pseudônimo. A inglesa Mary Anne Evans (1819-1880), que publicava seus livros como George Eliot, foi uma entre inúmeras autoras que usaram pseudônimos masculinos numa época em que mulheres escritoras não eram levadas a sério. 

Adotar um pseudônimo também pode ser um desafio – um recurso para o autor tentar provar que é capaz de repetir o sucesso do passado apenas com a qualidade de seus textos, sem usar o peso de um nome consagrado. Foi o que levou Stephen King a escrever livros com o pseudônimo Richard Bachman quando já era conhecido por seus romances de terror. A farsa de King foi muito mais engenhosa do que a de Rowling. Ele chegou a convencer um amigo de seu agente literário a posar para uma foto fingindo ser Richard Bachman. Disposto a descobrir se seu sucesso se devia à sorte ou ao talento, King publicou cinco livros como Bachman em sete anos antes de ser descoberto. Um deles chegou aos 28 mil exemplares. O experimento provou que o sucesso não era sorte, mas que o nome consagrado ajudava: depois que a verdadeira identidade do autor foi revelada, o livro vendeu dez vezes mais.

Uma continuação do livro deve ser lançada em 2014, com o mesmo pseudônimo – e com expectativas dignas de um novo lançamento de J. K. Rowling. Robert Galbraith agora é uma celebridade mundial. Vigiada pelos jornalistas, dificilmente Rowling conseguirá criar outro pseudônimo secreto. Alguns dirão que é o preço da fama. Mas talvez ela merecesse o sossego de um recomeço. Talvez todo livro merecesse ser lido em avaliado na sua forma mais pura, descolado da fama do autor.

4 comentários:

  1. Muito legal o post, Carlos. Acho que deve ser mesmo libertador para um autor muito famoso poder escrever sem ter os holofotes e as cobranças que seu nome traz para sua obra.

    Bjs.

    navirj.blogspot.com.br

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Achei legal a brincadeira da JK.
    Fernando Pessoa costumava ter inúmeros pseudônimos, cada um com uma característica particular.
    George Orwell é uma pseudônimo. E Lewis Carroll também. Enfim, cada um tem seu motivo p/ se esconder.
    Ótimo post ;)

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  4. Eu achei interessante a atitude dela.
    Se fosse comigo eu também iria querer lançar um livro sob pseudônimo para que a história fosse lida de maneira independente, agradando ou não. O fato dela já ser consagrada faz com que as pessoas criem expectativas sobre os livros.

    Um caso interessante sobre pseudônimos é do filho do Stephen King, Joe Hill. Nesse caso não é um escritor famosos tentando lançar algo novo, mas alguém querendo começar a carreira sem querer ser julgado pelo talento de outro apenas por serem parentes.

    Gostei do post! Muito interessante! :)
    Beijusss;
    http://hipercriativa.blogspot.com.br/

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